Beats: O Senhor das Panelas

Beats

Bem-vindo ao Beats, histórias curtas sobre a vida, emoções ou pequenos fatos. Vivemos milhares de histórias como essas ao longo da vida, histórias após histórias pontuando a música da nossa vida. Beats.

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Bandeira do Brasil
Fotografia cortesia de Rodnei Reis

O sr. Ivair Cavalo Guerra estava parado em frente ao estoque da repartição pública onde trabalhava. Usava camiseta verde estampada com um Koala que gritava a frase “Silver locket – Paper Mountain”, uma calça jeans surrada e o tênis de dois anos atrás que ainda servia para os padrões de etiqueta e moda do serviço público.

Estava parado porque não se decidia se o filho gostaria de um maço de 1000 folhas brancas ou das recicladas meio bege. Era pouca coisa, mas pegar um milhar hoje era parte do projeto “desconto no material escolar” que havia criado. O pessoal do serviço só usava as folhas para imprimir contas de casa, passagem de avião e voucher do Peixe urbano, ao menos ele usava o almoxarifado para algo nobre: a educação do seu filho.

Quando o celular começou a vibrar decidiu pelas brancas mesmo.

— Onde você está? — perguntou bruscamente a voz no celular.

— A caminho — respondeu Ivair. Ele odiava discussões e sabia que estava atrasado.

— Venha logo Ivair, ou então minha irmã vai achar que você não gosta dela.

Ele não gostava dela, mas proferir isso assim às claras só traria mais problemas. Quando desligou o celular já estava sentado na cadeira de encosto alto de seu Palio Fire. O assento era de couro, material escasso no modelo padrão da concessionária. Ivair Cavalo Guerra havia conseguido esse artigo de luxo graças ao ex-vizinho velho amigo que aceitou o assento em uma dívida “enrolada” na borracharia onde trabalha. O cliente tinha oferecido uns vales descontos no Erectus, mas o amigo preferiu o assento de couro porque é homem direito, casado.

Estava no cruzamento quando o celular tocou novamente.

— As folhas, o formulário, esponja e comida para o floki — disse a voz “celefônica”

Ivair repetiu a lista.

— E o balde.

— E o balde.

— Então venha logo Ivair, já já ela vai embora!

Bufando, sr. Cavalo Guerra fez um 360 cortando o semáforo verde dos pedestres para pegar o outro lado da avenida para acelerar as coisas. Girava o volante em quanto gritava “Desculpe, tô atrasado. Desculpe tô atrasado!”. Erguia as sobrancelhas em cumplicidade aos pedestres que respondiam à petulância de Ivair com o dedo do meio. O amigo também tinha arranjado um GPS que sabia dos radares, então ele estava tranquilo. Nada de multas.

Carro estacionando
Fotografia cortesia de Marcelo Braga

Não foi fácil subir com todas as compras e a papelada, teve que segurar a porta do elevador social. Até ouviu alguns chutes dos andares de cima, mas eles que esperassem.

— Oi meu amor, como foi de trabalho?

— O de sempre — Falar do trabalho sempre fazia Ivair coçar o nariz, ás coisas formigavam de tanto ócio. Meio período em um local, meio no outro; as pessoas de um setor sempre achavam que ele estava no outro. Ivair jogava Bocha — Pessoal do escritório não faz nada, ficam mamando na teta do governo, aí sobra para o cavalo aqui.

— Cadê formulário?— perguntou a sua cunhada.

Ela era gorda, por isso não arranjava fôlego para frases complexas. Também tinha insuficiência renal e esse era o motivo por trás de todas as ligações do dia e do formulário.

— Deu, deu. É só preencher aqui que a gente encaixa você na fila de transplante — A mulher esticou suas mãos, mas Ivair puxou o papel provocando um estalo de maneira afetada, – mas e as notas?

— Estão prontas né!

Era quase como se ela tivesse sido ofendida, mas Ivair acenou com o rosto dando o braço a torcer. Como o marido dela trabalhava em um estúdio de gravação tinha acesso a notas de doação para iniciativas carentes relacionadas com a música. Era um estúdio grande e tinha até a Carla Suco, cantora de axé, na carteira de artistas. Dava para abater 6% do imposto de renda.

— Levo amanhã mesmo, em uma semana você vai ser a primeira na fila. — Ivair atuava no setor de cadastros do “Hospital Das Mercê Infinita” e tinha carta branca para mexer na fila de transplantes. Agradecia sempre a Deus por poder ajudar os amigos em necessidade. – Mas não se empolga, porque vai ter que passar por hemodiálise ainda.

— É só uma bobagem médica. Um protocolo besta para mostrar que eu mereço o rim, provavelmente. Você sabe como são essas…

Ivair praguejou mentalmente, se tinha uma coisa que sua cunhada adorava assuntar era de doença. Estava em processo de ativar sua audição seletiva quando ouviu a voz na TV: “Atenção, abre-se nesse momento a rede de rádio e televisão para o pronunciamento oficial da presidenta…”

Salvo pelo dever cívico!

— Pessoal, peguem as panelas! — bradou sr. Cavalo Guerra. — Ela vai se pronunciar, com gente corrupta não pode ter descanso.

A família foi para a sacada. Luzes acendiam e apagavam nos prédios ao lado. “peins peins peins” ecoando pelo corredor entre os prédios. Tinha o Romildo, a turma do Edifício Glória e o casal que nunca comemorava o natal do prédio ao lado, todos unidos batendo panela contra a corrupção.

Ivair se encheu de orgulho brasileiro.

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