Cansei de Literatura Nacional

É isso mesmo, eu NÃO AGUENTO MAIS ver as estantes de livros de Literatura Nacional nas livrarias de São Paulo (e acho que no Brasil todo). Eles me irritam, me envergonham e me fazem ter vontade de ser um livreiro.

Fotografia cortesia de Navaneeth KN.
Fotografia cortesia de Navaneeth KN.

Para tratá-los com respeito.

Qual o motivo daquela estante, sério. Qual a missão? O que o cliente pensa quando entra na livraria e vê a estante de literatura nacional?

O que EU PENSO é que faltou uma placa ali, para te preparar. Só pode.

Afinal, brasileiro produz todo tipo de literatura, ficção científica, fantasia, biografia, aventura, horror, infanto-juvenil, ficção histórica, policial, guia de turismo e sei lá onde essa lista termina. Sendo assim, o aviso de que ali você encontrará apenas material escrito por brasileiro é para causar alguma sensação.

E que cada um se sinta como quiser quanto a isso, já que eles não explicam como devemos nos sentir.

Cuidado, perigo de combustao instantanea
Fotografia cortesia de Andy Maguire.

Mas tudo bem, vamos com calma que a causa pode ser nobre.

Existe a possibilidade de separar os brasileiros do resto do MUNDO, porque assim você encontrá os clássicos da nossa literatura. Se for esse o caso, não seria mais justo criar a estante “Clássicos“?

Outra alternativa é mostrar o que está escrito em português brasileiro, mas nesse caso também faria sentido misturar a literatura nacional com todo conteúdo traduzido, com todos aqueles livros mais descolados da estante LITERATURA ESTRANGEIRA escritos em português brasileiro.

Eu entendo quando o caso serve para avisar você que na estante logo ali encontrará literatura francesa (escrita em francês), ou holandesa ou maori. Assim, quem não fala o idioma passa por ela rapidinho, nem liga. Super justo e apropriado. Ajuda o cliente e evita confusão. Todo mundo ganha.

Acontece que essa lógica não se aplica à literatura nacional (brasileira), já que todos somos capazes de ler os livros daquela estante. Então se algum livreiro quiser me explicar serei todo ouvidos.

Não seria mais justo colocar quem é da ficção histórica na estante da ficção histórica, e quem é do infanto-juvenil na estante dos infanto-juvenil independente da nacionalidade?

 

O consumidor fã de um gênero vai ali, lê a sinopse, o verso, gosta da foto escritor-magia na luva do livro e compra independente da nacionalidade. Olha que mundo lindo seria!

A real é que eu sei porque é assim que funciona, e você sabe também. Só que ninguém fala nada. Em vez disso faz um “beiço” e pensa “É foda…”.

Bem, é foda mesmo. E talvez a culpa disso seja do brasileiro, é uma estante resposta aos “nossos” anseios. “Nós” queremos saber qual estante tem literatura nacional, queremos saber onde estão os filmes nacionais, os quadrinhos nacionais. Nós somos assim, temos uma síndrome aí incutida na gente por gente de fora. Nós ficamos assim e as livrarias querem vender e por isso entram na dança.

Infelizmente, não dá para ficar assim. Espero que quem passar por esse texto concorde comigo e replique a mensagem. Nossos escritores não precisam e não merecem uma estante especial.

Eu quero viver para ver uma livraria com culhão suficiente para misturar tudo como tem que ser. Não deveria importar onde nasceu o escritor do livro, pelo menos não de forma tão chamativa. Se a história for boa vale a pena ser comprada e lida.

O curioso é que não tem as estante de Medicina e de “Medicina Escrita por Brasileiros”. Livros técnicos estão imunes ao estigma de sua contraparte criativa.

O Estigma da Literatura Nacional

Da literatura, do cinema e de muitas outras produções artísticas. Se gostamos de repetir que “o melhor do brasil é o brasileiro”, então porque nos sabotamos tanto? A estante da literatura nacional talvez seja prova disso. Até nos sites das maiores livrarias você vê que a literatura nacional é uma categoria a parte, como se fosse um outro estilo de livro, um novo gênero.

Existem muitas editoras novas e maduras lentamente progredindo e acreditando no material nacional. Textos curados e desenvolvimentos com muita técnica e profissionalismo.

Olhar para a literatura nacional não é caridade.

 

Nunca foi. O material produzido por nossos escritores é de alta qualidade, e se não for não merece ser lido mesmo. Só espero que a chance seja dada. Que possamos nós leitores decidir o que é bom e o que é ruim de uma forma mais natural.

Livreiros, desmontem aquele holofote ululante que é a estante de literatura nacional e nos deixe escolher o que é bom para nós apenas pelo gênero e nosso gosto literário. A iniciativa precisa vir de alguém, e os livreiros são as ferramentas mais importantes nesse empreendimento. Todos tem a ganhar, afinal quanto mais livros vendidos, melhor para eles também!

Placa pare
Fotografia cortesia de Steve Johnson

Eu acredito que está na hora de parar. Além de torcer para que um livreiro passe pelo meu texto, posso trabalhar para que essa realidade mude, ao menos na minha esfera de influencia. Começando por essa postagem e por aquisições futuras de material nacional!

Assim, quem sabe, os empresários do mundo literário percebam que admiramos sim nossos escritores e nosso próprio país.

E você, transeunte internauta? Você compra livros nacionais? Gosta daquela estante de livros nacionais para saber por onde não passar? Ou é só um lugar onde procurar os livros para seu filho passar no vestibular…

 

Atualizado: Se você se interessa pelo assunto, tá aqui um ótimo vídeo com uma visão alternativa mas também válida sobre como fazer conteúdo nacional. Eu não acredito que conteúdo nacional mereça ser consumido, eu acredito que conteúdo BOM mereça ser consumido. Assim, o papo do Clarion de Laffalot vem bem a calhar

 

 

 

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