Memória Fraca

Há anos atrás publiquei um episódio da minha vida que ainda é presente na minha vida, e certamente da de algum de vocês. A falta de memória:

“Sempre guardo a carteira no bolso de trás da calça, só às vezes, quando quero sentar no metrô, ponho-a dentro da bolsa de trabalho. O problema de fazer isso é que estou tão acostumado com ela no bolso da calça que, de dez em dez minutos, levo um susto pensando “PQP, perdi minha carteira!”

Logo depois, com alívio, vejo que ela está na bolsa. E logo mais, de repente: “PQP, perdi minha carteira!”
Essa sina segue até eu devolver a carteira ao bolso de trás.

O bom disso é que toda vez que a encontro, de novo e de novo, lembro que “nem tudo está perdido” nessa vida.”

Nem tudo está perdido, mas muito está sim. Nosso cérebro simplesmente não é um SSD de 1tb de espaço. Eu sempre fui um retardado que esquece coisas e ao longo dos anos pessoas próximas passaram a se acostumar com isso.

Eu tenho algumas limitações. Por exemplo, eu sei que não posso comprar garrafas de água e andar com elas por aí, porque na primeira parada lá ela vai ficar e eu nunca mais vou lembrar. Só quando bater uma sede, geralmente três horas depois já a 350km de distância da garrafa.

O mesmo vale para guarda-chuvas, eu os abandono pelo caminho, grandes ou pequenos. Não tem jeito. Esse ano já foram dois.

Tentando entender porque isso acontece comigo, veio a triste verdade. Via de regras, em condições perfeitas de existência, você não registra o que não é importante para você. Os eventos ficam na memória de curto prazo, e quando estão para serem eliminados as sinapses perguntam para o seu hipocampo “ce ké issaqui?” E ele responde “Nah, joga fora”. Pimba, é assim que você esquece das coisas.

No meu caso, como não ligo de tomar chuva, o guarda-chuva se torna irrelevante e por isso acaba largado na primeira parada que eu fizer.

A coisa complica quando você pensa em datas espaciais, como dia que começou a namorar, aniversário da tia, natal… Ou quando esquece coisas importantes, como o bilhete do voo ou o RG. A desculpa continua sendo a mesma, você não se importou o suficiente para seu hipocampo pegar esse elemento e colocá-lo na memória.

Ser esquecido significa basicamente que você “don’t give a f%ck” para muita coisa. Da hora né?

O queremos

Ok

Não é tão simples assim, existem um mundaréu de motivos mais específicos que esse para explicar a falta de memória, e os neurofodas pesquisadores da área ainda estudam sem parar para explicar tudo com palavras difíceis em artigos científicos. Coisas como depressão, estresse e solidão ajudam a cagar sua acelerar a falta de memória.

Isso dito, as soluções se tornam levemente impraticáveis. Elas envolvem conselhos como “Hey, não fique triste” e “Mude completamente sua personalidade”. É, isso não vai acontecer assim tão fácil.

Eu largo minha carteira em todos os lugares, vai ver não me importo com $$$. A Camila já se acostumou, assim que levanto de uma mesa ela já pega minha carteira. Ás vezes eu até lembro e volto para pegar, mas a carteira já foi parar na bolsa dela. Ela ri me vendo com cara de idiota olhando a mesa. Viro para ela e digo “acho que esqueci minha carteira em casa”.

O meu conselho é: acostume-se com você. Todos temos limitações, e se sua memória é uma das suas, aprenda a lidar com isso. Se prepare. Se sabe que vai esquecer seu celular, amarre ele no pescoço. Se acha que vai perder os ingressos do cinema, entregue eles para alguém mais responsável. Se vai perder um compromisso importante, marque ele na agenda e programe 123124 lembretes ao longo do ano.

Ninguém muda da noite para o dia, e pegar pesado consigo mesmo vai te deixar estressado. E como eu disse ali em cima, estresse piora tudo. Estado de estresse significa estado de alerta. É como se seu corpo se preparasse para não morrer. O que é bom quando você se envolver em uma luta corporal contra um urso pode te atrapalhar na hora de assistir as aulas de física antes da prova.

O efeito desencadeado no seu cérebro é o mesmo. Todas as substâncias emitidas para mantê-lo alerta para o momento destroem células cerebrais e o impede de criar novas enquanto o momento “mato ou morro” está ativo. Ou seja, relaxe essa pacuera e seja feliz.

Com sorte, o cérebro dos esquecidos não é tão gostoso para zumbis, mas isso só vamos descobrir quando o apocalipse zumbi chegar.

Foto de capa cortesia de Pierre-Olivier Carles.

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