Meu primeiro mau-humor

Senhor com Alzheimer
Fotografia cortesia de GollyGForce

Meus pés estavam curiosamente frios, especialmente pela indolência preguiçosa em que o resto do corpo estava entregue. Rapidamente percebi que estava todo enfurnado na coberta com só meus pézinhos para fora, coitados. Pensei em retraí-los para dentro do conforto, mas… teria que movimentar toda a perna. Acho que até as duas pernas. Quem sabe poderia estabanar-me e torcer para a coberta cair por cima de tudo… mas dessa forma acabaria descoberto, melhor não.

Melhor mesmo é deixar estar…

 

 

Beats

Bem-vindo ao Beats, histórias curtas sobre a vida, emoções ou pequenos fatos. Vivemos milhares de histórias como essas ao longo da vida, histórias após histórias pontuando a música da nossa vida. Beats.

 

Quinze minutos depois percebi que “deixar estar” não tinha sido uma boa escolha. Vingativos que meus pés são,

decidiram por mandar todo o frio dos dedos para minhas pernas, que por sua vez mandaram para os braços, que mandaram que mandaram que de repente eu estava quase tremendo. No fim, meus cabelos estavam abespinhados, ou melhor, ouriçados — Meu filho vive me dizendo para não complicar com as palavras — e não tive alternativa. Abri os olhos.

 

Jesus, que preguiça!

 

A primeira coisa que vi foi um senhor com um casal de jovens no colo. Eram quase pequenos adultos, e estavam com todo o peso no colo do pobre velho, e mesmo assim aquele senhor insistia em estar feliz. Os três exibiam sorrisos obscenos de tão largos,  pareciam  estar se divertindo muito, e a coisa toda estava congelada em um quadro aquarelado cheio de cores.

 

— O que tem de bom? — reclamei, como se eles tivessem dito em unissono “Bom dia!”

 

Depois que me cobri novamente o torpor veio sem rodeios, e aquele calor confortador quase tomou conta de mim. Acho que poderia ficar ali por uma vida inteira, mas antes mesmo de cogitar a possibilidade meu filho já entrava no quarto. Eu não o vi, mas o abrir a porta, o pisar leve e o respirar esponjoso não enganavam ninguém.

 

— Bom dia pai! Pai, eu sei que está acordado, vamos, está um belo dia lá fora.

— hnn…

— Vamos pai! — insistia o… o… Joaquim! (Essa memória que me falha)

 

Depois de puxar minhas cobertas e me ouvir ladainhar sobre a dureza da cama ele conseguiu me fazer sentar. Parece que tinha um café da manhã me esperando. Com um tal de suco de Bacuri que “dona-não-sei-quem” trouxe de Belém e que eu gostava muito. As crianças viajaram para a casa da praia e o dia estava muito chuvoso para irmos ao parque(mas não estava um dia lindo?). Falou e falou e saiu. Ufa.

Coloquei as meias e sandálias e pronto. Tudo perfeito, exceto pelos olhos daquele senhor do quadro, que me atingiam com aquela felicidade congelada. Ele e os outros dois, estavam muito bem feitinhos no suporte branco magistralmente colocado ao lado da janela. Parece que queriam competir em brilho com sol. E eu aqui com meus ossos doídos, esses tendões que se encolhem sem aviso, e eles ali sorridentes. Até o pullover xadrez combinava com os sapatos. Coisa desagradável.

 

Por fim que desci as escadas. A casa aqui tem um elevador, que certamente deve ser para algum velho. Eu ainda desço de escadas. Vou de lado, é verdade, mas faço isso porque é bom para todo mundo, até para os mais jovens. Mas eles não me escutam e vão de um arrombo só. Logo caem e então quero ver quem é que usará o elevador.

 

— Pai, não usou o elevador de novo!

— Melhor deixar livre para o velho que precisa dele.

— Ha ha! Tudo bem vai, é verdade. Acho que o velho ainda não chegou nessa casa.

 

Esse meu filho estava sentado perto da janela com os jornais abertos e espalhados, e a Célia, um amor de pessoa e namorada do meu filho, pondo a mesa. O que me impressionava mais eram as cadeiras, umas coisas muito modernas. Pretas e redondas, pareciam uns ovinhos de codorna estragados. Encantadoras, mas nada confortáveis. Eram altas e não tinham encosto. Pelo que me lembro bem, até o senhor do quadro tinha encosto. Ainda por cima, se a memória não me falha, ele com seu pullover engomado estavam em uma espécie de cadeira amadeirada e estofada. Aquilo sim era conforto.

 

— Aperta aqui olha — disse o Joaquim sem eu nem perceber que já estava do meu lado. Puxou uma alavanca ali e minha cadeira fez “vuft”. — Viu, é simples. Da próxima você tenta, aí você ajusta como quiser.

— É, mas ainda não tem encosto nem estofado.

 

Comemos e bebemos. A Célia me contou que as crianças foram passar o fim de semana na praia com os amigos, e como foi difícil achar aquele suco de bacuri que eu tanto adoro. Parece que eu fui para Belém, mas não me lembro bem. Do sabor eu já lembrava, algo que fica no meio do caminho entre o melão e uma sopa gostosa. Não sei, acho que chega perto da manga, mas não tão doce. Vai ver que não dá para comparar fruta com fruta. Tem sabor de bacuri, e que fiquem satisfeitos com essa definição. Quer ter certeza que vá para Belém.

 

Depois do desjejum, a falta de café na dispensa nos fez sair de casa para ir ao supermercado. E a Célia foi do café para uma vassoura nova. E já que íamos para o mercado seria bom pegar umas frutas secas e detergente. Saímos de casa com uma lista, tudo por que faltou café.

— Não sei porque vocês decidiram morar juntos tão cedo. A Célia é um amor, mas parece que ela manda na casa.

— Como assim cedo, pai? Estamos juntos já há quase 15 anos!

— Ah é… e as crianças?

— Foram para a praia com os amigos.

 

Vejam só, o dia está chuvoso para ir ao parque mas lindo para ir ao mercado. Eles vivem me enganando esses meus filhos, especialmente o Francisco, ou seria o Joaquim?

 

Meu Deus do céu, que frio. Aposto que aquele senhor do quadro não tem filhos assim, e que não passa frio com aquele pullover tão bem passado. Lembrando assim de memória acho até que vi uma lareira atrás deles. Ele sim é que tem vida. Maldito quadro, alguém o colocou ali só para me lembrar quão medíocre é minha vida.

 

Compramos o café e voltamos para casa, onde o resto do dia se resumiu em ver filmes, comer e ver a chuva tomar conta do mundo. Ganhei chá e um novo par de meias para meus pés que eram tão quentinhos que me fizeram adormecer. Acordei com um som contínuo agudo muito irritante e conhecido.

— Você me pôs no elevador!

— Mas pai, você estava dormindo, e já está tarde e frio. Resolvi te por na cama.

— Frio porque não tem lareira!

— Ha ha! Lareira então é? Já está com saudade de casa é? — troçou com um sorriso zombeteiro.

— Não seja tolo, não estamos em casa?

— Estamos, mas na sua casa, em Taubaté. Viemos resolver as últimas coisas e voltamos no final das férias. De qualquer forma, bom ver você reclamando. Mostra que lembra da lareira de casa, e isso é muito bom! — dizia Joaquim, já abrindo a porta do meu quarto.

 

— Não é nada disso, eu… — notei que o quadro daquele senhor feliz não estava mais ali. — Cade o quadro? Eu não quero levar aquele quadro! Ele me trás péssimas lembranças, péssimas! Ele sim deve ter uma vida feliz, com uma família boa! Quem colocou aquele quadro ali? Quem tirou?

— Eu pai — disse Joaquim espantado.

— Eu sabia! É para me mostrar quão triste minha vida se tornou? É para tripudiar me mostrando quão velho eu sou e quão cansados estão meus ossos? Não quero que leve aquele quadro — eu já andava pelo quarto procurando-o nas gavetas. — não quero e não quero.

— Como sabe tudo isso sobre o senhor do quadro? Parece que você inventou uma história para ele.

— Aqueles três ficaram rindo de mim o dia todo, eu sei disso. Eu não estava vendo, mas eles estavam rindo sim. Aquele sorrisinho branco que eu já perdi faz tempo!

— Pai…

— Não adianta, não vou levar.

 

De um embrulho de papelão e plástico bolha encostado ao lado da porta, Joaquim sacou a bela moldura branca. Que ousadia, que Deus não permita que outros pais tenham filhos assim.

— Pai, esse quadro foi feito pela Célia, ontem. Esses são Camila e Fábio, meus filhos. E este senhor feliz aqui é você. Eles quiseram te dar isso antes de ir para Paraty, porque ficarão lá o mês todo.

— Sou eu?

— Sim.

— Ah… até que estou bonito nesse pullover, não é?


Alzheimer não é bonito, não é romântico. Nós somos o que nós vivemos, memórias e lembranças. A doença de Alzheimer rouba isso e esconde a personalidade de sua vítima onde ninguém pode ver.

Setembro é o mês mundial da doença de Alzheimer, você quer ajudar ou se informar?

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